O que é filantropia comunitária e por que ela importa para a luta por direitos

por Jész Ipólito e Yasmin Morais
Rede Comuá

Mobilizar recursos para iniciativas de defesa de direitos é um desafio constante. Mas e se as soluções mais poderosas não estiverem em editais estrangeiros e burocráticos, mas sim nas próprias comunidades?

 

Setembro foi dedicado ao Mês da Filantropia que Transforma, um movimento co-construído pela Rede Comuá e parceiros, para debater, visibilizar e fortalecer a filantropia comunitária e de justiça socioambiental. Em 2025, o Mês incentiva reflexões, debates e disseminação de experiências sobre a relação entre Clima e Direitos. A partir das práticas da filantropia comunitária e de justiça socioambiental, busca-se evidenciar como soluções locais de grupos e comunidades já estão enfrentando os efeitos da crise climática em seus territórios, fortalecendo a resiliência, a defesa de direitos e a democracia.

Mas o que é a filantropia comunitária?

A filantropia comunitária é uma prática orientada pela colaboração e confiança. É quando uma
comunidade se une para mobilizar recursos de diversas fontes para apoiar o seu próprio
desenvolvimento, não mais como uma beneficiária – da maneira como a filantropia tradicional
normalmente a enxerga – mas sim como uma co-investidora em seus próprios projetos, histórias
e ambições, visando a garantia de direitos para todas as pessoas. Essa prática enxerga “recursos”
de uma forma ampla, para além dos recursos financeiros, valorizando também saberes,
experiências e partilha de bens. Essa definição é baseada em experiências concretas e práticas,
reconhecendo que a filantropia comunitária não é uma prática nova, e sim ancestral.

No Brasil, embora o termo tenha ganhado reconhecimento entre os anos 1990 e início dos anos
2000 (um período em que o financiamento internacional diminuiu significativamente), as
práticas de doação comunitária têm uma história muito mais longa. Desde as práticas de ajuda
mútua, cooperação e solidariedade presentes nos quilombos e comunidades indígenas até inúmeras iniciativas locais, essas formas de apoio coletivo têm uma importância histórica
significativa e continuam a prosperar.

Qual a relação da filantropia comunitária com a luta por justiça social e com a crise climática?

A filantropia comunitária também está relacionada à decolonização, uma vez que contribui para
desfazer os impactos persistentes da colonialidade, fomentando autonomia a grupos que, até
hoje, sofrem as consequências do sistema colonial. Por isso, não se pode falar em filantropia
comunitária sem falar em justiça social e socioambiental: promover justiça é valorizar
conhecimentos apagados pela colonização e apoiar os modos de vida e soluções coletivas
desenvolvidas pelas próprias comunidades.

Essa abordagem se torna ainda mais necessária diante da crise climática. Como destacamos em
um texto para o blog da Sociedade Viva no Mês da Filantropia que Transforma 2024, os efeitos
do clima não atingem a todos da mesma forma: populações indígenas, quilombolas, mulheres,
agricultores familiares, LGBTQIAPN+ e outros grupos politicamente minorizados estão entre os
mais afetados.

A filantropia comunitária e de justiça socioambiental reconhecem que essas comunidades têm
soluções locais potentes, construídas a partir de seus saberes, modos de vida e organização
coletiva. Apoiar essas iniciativas é fortalecer a adaptação climática com justiça, garantindo
acesso a direitos e colocando as pessoas e seus territórios no centro da transformação.

Mais do que uma forma de mobilizar e gerir recursos, uma oportunidade para criar um sistema mais justo e colaborativo

Portanto, a filantropia comunitária não é meramente um mecanismo para movimentar dinheiro
de forma eficiente, mas uma prática que se baseia no poder coletivo. Sua história de cocriação,
muitas vezes a partir dos próprios movimentos sociais, contribui para um sistema mais

colaborativo e enraizado nos saberes locais. Tal sistema prioriza, por exemplo, entre outros
princípios:

● O reconhecimento e a valorização dos ativos das comunidades: seu conhecimento,
habilidades, redes, pessoas, experiências;
● O desenvolvimento de ações voltadas para o fortalecimento da liderança local e do tecido
comunitário;
● A promoção da diversidade e da participação de representantes das
organizações/comunidades apoiadas nos processos de tomada de decisão internos.

Por meio desses princípios, a filantropia comunitária oferece oportunidades para (re)imaginar o
sistema filantrópico e de desenvolvimento. Um sistema menos competitivo e mais colaborativo;
menos desigual e mais equitativo; menos centrado em agendas e projetos de curto prazo e mais
comprometido com a luta de longo prazo pela garantia de direitos e justiça social.

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