A COP das ruas e a COP de dentro: o que Belém ensinou para o mundo

por Laura Leal
Diretora de Engajamento do Greenpeace Brasil

A expectativa já era alta antes mesmo da COP30 começar: seria a primeira conferência do clima num país democrático depois de edições em regimes autoritários. E agora aconteceria no coração da Amazônia. Além disso, a sociedade civil brasileira é reconhecida mundialmente pela sua capacidade de articulação, e sabíamos que não íamos deixar a peteca cair. Mas o que vivemos em Belém superou as expectativas.

A cidade entregou tudo que cabe da nossa brasilidade em uma discussão que não
deveria ficar apenas do lado de dentro da chamada “zona azul”, a área de negociação
oficial dos países. Belém mostrou que a COP das ruas existe e deve seguir existindo
para pressionar os negociadores a serem mais ambiciosos e tratarem com seriedade as
demandas que vêm das pessoas.

Pudemos sentir a vibração dessas pessoas, das organizações da sociedade civil, das
ONGs, dos movimentos sociais, do movimento indígena das mais diversas regiões do
planeta… Para além de uma festa, Belém foi inundada por uma sociedade civil ativa e
alerta, mostrando sua força dentro e fora das negociações.

Belém e sua intensidade

A escolha de Belém como sede da COP30 não foi à toa. A receptividade do povo
belenense vai ficar guardada e emoldurada na memória. O Greenpeace, além de
participar ativamente da COP de dentro, aquela organizada pela ONU, esteve também
na COP de fora, nas ruas e no rio. Pressões diferentes, mas com o mesmo fim: garantir

que as pautas que precisavam estar na mesa fossem discutidas e medidas concretas
assumidas.

Pois foi nas ruas (e na água) que sentimos essa receptividade e acolhimento dos
belenenses. Recebemos mais de 7 mil pessoas no nosso navio ativista, o Rainbow
Warrior III (Guerreiro do Arco Íris, em português), que estava atracado na Universidade
Federal do Pará (UFPA). Uma oportunidade única para contar sobre a organização, as
nossas campanhas e também de valorização do trabalho da sociedade civil. Vimos uma
população interessada, envolvida e emocionada com a nossa presença no território.

A Universidade também foi palco da Cúpula dos Povos, que reuniu milhares de
pessoas e movimentos sociais. Foram cinco dias de conversas intensas para pensar a
partir do território e da participação popular soluções para a crise do clima.

Pelo Rio Guamá, que banha a cidade de Belém, vimos uma barqueata com mais de 200
embarcações conectando a Amazônia com o mundo e exigindo o fim da desigualdade e
do racismo ambiental. Povos tradicionais, ribeirinhos e movimentos sociais ocuparam o
rio para lembrar que, sem justiça social, não existe política climática.

Belém, a capital do mundo

E as ruas de Belém não só receberam lideranças e pessoas do Brasil, mas também de
outros continentes. Na Marcha Global pelo Clima, a sensação era de que o mundo
estava lá. Mais de 40 mil pessoas percorreram as ruas da cidade manifestando suas
demandas, mas com um propósito final único: um planeta melhor para todos.

A COP30 foi também a conferência com a maior delegação indígena, que soube
aproveitar as oportunidades para pautar suas demandas e exigir a demarcação dos
territórios para conter a crise climática, mostrando que as respostas estão com os
povos indígenas, nos territórios. E que isso deve ser valorizado e respeitado.

Agendas e eventos paralelos organizados por ONGs e coletivos ocuparam casas,
espaços públicos e lugares que até então tinham outros usos. Muitos devem
permanecer como um legado para a cidade. Belém virou a capital do mundo por duas
semanas e foi lindo ver a vivacidade da sociedade civil.

Texto borocoxô não apaga o brilho da sociedade

Todo esse vigor não foi apagado pelo resultado frustrante das negociações. Apesar de
um grande número de países se manifestar a favor de mapas do caminho para acabar
com o desmatamento e a queima de combustíveis fósseis, vimos no fim que a força de
uma minoria conseguiu tirar do texto final os dois mapas. Além disso, o aumento do
financiamento climático também foi insuficiente.

Apesar do balde de água fria com esse texto borocoxô, foi a pressão das ruas que fez
com que a presidência brasileira da COP colocasse debaixo do braço os dois mapas do
caminho com a promessa de trabalhar nisso durante o ano que vem até a COP 31.

A COP de dentro deixou a desejar, mas não apagou o brilho do que vivemos nas ruas
durante duas intensas semanas. Foi revigorante! Que essa energia siga ecoando em
cada um que esteve lá e nos dê ânimo para continuar na luta pela defesa do meio
ambiente e de seus povos.

Laura Leal
Diretora de Engajamento do Greenpeace Brasil, atua há mais de 10 anos no terceiro
setor, com foco em mobilização social e estratégias de impacto. Jornalista e cientista
social de formação, especializou-se em comunicação de causas, engajamento e gestão.
Acredita no poder das alianças e da comunicação como caminhos para mudanças
sistêmicas.

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