A Força da Sociedade Civil na COP30 e o Papel do Trabalho em Rede

por Joana Amaral e Priscila Pacheco
Observatório do Clima

É novembro de 2025 e o mundo todo está com os olhos voltados para Belém do Pará. Pela primeira vez, uma Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, a COP, será realizada no Brasil – e justamente na Amazônia, símbolo vivo das urgências e esperanças do planeta.

 

Engana-se quem pensa que esse trigésimo evento da ONU é apenas para governos e grandes empresas. O sucesso da COP30 depende bastante da sociedade civil, ou seja, das pessoas, redes e organizações que pressionam todos os dias para que sejam implementadas no planeta ações ambiciosas e rápidas para lidar com as mudanças climáticas. É a sociedade civil quem também trabalha para que as questões do clima e a justiça social caminhem juntas.

A importância da sociedade civil

A sociedade civil importa porque é o elo entre a ciência, a política e o dia a dia das pessoas. São as ONGs, movimentos sociais, coletivos, comunidades tradicionais e cidadãos comuns que cobram compromissos reais, denunciam retrocessos e propõem soluções concretas. É nas comunidades tradicionais, nas periferias urbanas e nos coletivos jovens que a ação climática ganha rosto e propósito.

Em um mundo onde os discursos e as ações oficiais muitas vezes são mais lentos que as emergências climáticas, as redes da sociedade civil funcionam como um sistema nervoso: conectam diferentes áreas, reagem rápido e mantêm viva a pressão e a cobrança por mudanças.

Além disso, é a sociedade civil quem, há décadas, produz conhecimento, articula redes, pressiona governos e inspira novas formas de participação social. No Brasil, por exemplo, a sociedade civil é altamente profissionalizada. Organizações do terceiro setor do campo sociambiental vêm constituindo, nos últimos trinta anos, uma trajetória ascendente de trabalho consistente na produção de dados, e foi o movimento ambiental que conseguiu incluir a proteção ao meio ambiente na Constituição Federal de 1988. 

Em outro exemplo, em 2023, durante o primeiro dia da COP28, em Dubai, os países concordaram em criar um fundo para financiar perdas e danos climáticos — uma demanda antiga dos estados insulares e da sociedade civil internacional. A COP30 é, portanto, uma oportunidade estratégica para ampliar a visibilidade desse trabalho, conectar agendas e propor caminhos comuns entre diferentes setores.

O papel do Observatório do Clima

Um dos principais exemplos dessa atuação no país vem do Observatório do Clima (OC). Criado em 2002, ele é hoje uma importante rede brasileira voltada à agenda climática. Reúne 161 integrantes – entre organizações socioambientais, institutos de pesquisa e movimentos sociais – que trabalham juntos por um Brasil descarbonizado, igualitário e sustentável.

Na prática, o OC produz e divulga conhecimento de forma transparente. Desde 2013, é responsável pelo SEEG, o Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa, que mostra quanto e como o Brasil emite poluentes que aquecem o planeta. Esses dados ajudam o país a se enxergar no espelho e a implementar políticas públicas eficazes.

Como atua e por que é essencial

Mais do que números, o Observatório do Clima faz articulação política, comunicação e incidência pública. Ele traduz o debate técnico em linguagem acessível e defende que a atuação diante da crise climática é também uma luta por direitos – pelo acesso à energia renovável (sem a produção prejudicar as populações locais), à floresta em pé e à qualidade de vida.

O OC é uma rede independente e sem fins lucrativos. Seu financiamento vem principalmente de doações e de fundações filantrópicas, nacionais e internacionais, comprometidas com a transparência e com a defesa da democracia. O OC não recebe dinheiro de governos e nem de empresas privadas. Essa autonomia garante que sua atuação seja guiada por evidências, e não por interesses econômicos nem partidários, e permite à rede ser exigente e combativa, sempre que necessário.

Redes que sustentam o futuro

As redes socioambientais, como o Observatório do Clima, são essenciais porque fortalecem vozes diversas e constroem pontes, uma vez que uma crise como a climática não se resolverá com esforços isolados ou “canetadas” de governos. Por isso, as redes costumam reunir cientistas, comunicadores, povos indígenas, advogados, jovens e ambientalistas em torno de um mesmo objetivo: assegurar que o futuro do planeta seja decidido com a participação de todos. 

Essa polifonia garante mais representatividade e seriedade às propostas sugeridas. A partir de redes, as organizações e os grupos de base, presentes em todos os territórios do Brasil, conseguem acessar espaços que isoladamente seria impossível. As redes são como veias, que contam com a capilaridade para regar todo o sistema, do nível mais local, ao nacional e internacionais. 

As redes e os movimentos sociais permitem representatividade junto a espaços políticos historicamente fechados para os grupos sociais marginalizados. Na COP30, essas redes levarão a voz do Brasil real, ou seja, aquele que sente as secas, as enchentes, as queimadas, a injustiça climática, que atinge os mais vulneráveis, mas também o Brasil que oferece soluções vindas das próprias comunidades, das florestas e das periferias.

Belém, o Brasil e o mundo

O Brasil chega à COP30 com desafios urgentes. Os dados divulgados pelo Observatório do Clima apontam que o país precisa acelerar a transição energética para fontes renováveis, conter o desmatamento e adotar políticas de adaptação mais robustas. Ao mesmo tempo, está posta para o Brasil uma oportunidade inédita de liderar outros países pelo exemplo, por meio da apresentação de soluções integradas que conciliem justiça climática e desenvolvimento econômico inclusivo – o que também significa deixar os combustíveis fósseis (petróleo, carvão e gás) para trás. Nesse contexto, a sociedade civil torna-se um elo de confiança entre compromissos políticos e realidades comunitárias, assegurando que as decisões tomadas em Belém tenham continuidade nos territórios.

O legado da COP30 dependerá justamente dessa mobilização. Não se trata apenas de aprovar metas ou relatórios técnicos, mas de fortalecer vínculos, multiplicar experiências e ampliar o pertencimento social à pauta climática porque os movimentos sociais são os que costuram a ambição global às necessidades locais. Depois da conferência, será fundamental também que as redes formadas ou fortalecidas permaneçam ativas, consolidando espaços de diálogo permanente com governos e empresas, estimulando a educação climática, a transparência de dados ambientais e a implementação de metas ambiciosas para diminuir o aquecimento.

A COP30 é mais do que uma conferência mundial. É uma oportunidade histórica para o Brasil mostrar que democracia e sustentabilidade andam juntas. Cabe à sociedade civil cobrar que as promessas feitas em Belém se transformem em ações urgentes e concretas. O futuro será decidido com pressão e cobranças nas ruas, nas redes e nas vozes que se recusam a ficar em silêncio diante da crise climática, o maior desafio da humanidade para a continuidade de sua vida na Terra.

Joana Amaral é coordenadora de Engajamento e Mobilização do Observatório do Clima. Engenheira florestal, tem mestrado em desenvolvimento, sociedade e cooperação internacional.

Priscila Pacheco é jornalista no Observatório do Clima, cofundadora da Agência Mural, com atuação em jornalismo local sobre clima e checagem de fatos, e vencedora do prêmio ICFJ Saúde de 2021.

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